Capítulo 1 A Megera e sua Mãe
Ela era uma
mulher bondosa.
Pelo menos
assim se dizia, ninguém seria capaz de contradizer uma verdade como essa.
Ela era
piedosa, religiosa, se sacrificava pelos outros. Seu maior prazer consistia em se
doar por completo no cuidado a familia: limpando, cozinhando, garantindo que
todos fariam tudo certo segundo as regras que ela estabelecia para o
funcionamento da casa.
O marido, esse
não era capaz de se alimentar sem ela, nem mesmo sabia quais alimentos lhe
apeteciam, ou a quantidade certa de comida a ser posta no prato. Era ela quem
lhe servia o arroz, feijão, salada, mistura, água... absolutamente tudo em sua
dieta alimentícia, até mesmo nas festas. Um homem sem braços ou pernas,
decapitado até mesmo do paladar.
Mas ele a
amava, sobretudo. Afinal de contas, era incapaz de sobreviver num mundo sem
ela.
E era isso que
ela admirava em seu cônjuge: a sua completa capacidade de ser incapaz sem ela.
Esse fora seu único motivo para ter se casado afinal, segundo a sociedade da
época, o valor da mulher estava ligado a satisfação do homem, e a vida feminina
consistia em crescer, casar-se e ser útil ao marido e aos filhos. Por isso era
uma vitoriosa em seu papel de esposa, já como mãe deixava um pouco a desejar,
pois as suas filhas não eram tão colaborativas como o pai delas.
A sua filha
mais velha, Alice, nasceu quando ela mesma era ainda uma criança. Por isso
parte da educação de Alice acabou ficando por conta de sua avó, Lili,
absurdamente ainda mais controladora e megera que a Megera oficial de nosso
relato, pois essa senhora não apenas exercia influência sobre a familia, mas também
controlava toda a comunidade praieira em que elas viviam. Uma benzedeira
poderosa, sua palavra era lei desde Parati até Santos. Nem mesmo os padres eram
capazes de enfrentá-la. Uma vez um jovem padre chegou a barrá-la na porta da
igreja antes da missa, alegando que ela praticava atos de bruxaria e, portanto,
não era digna de entrar na Casa de Deus. Ela apenas olhou no fundo dos olhos
dele com seus pequenos olhos oblíquos de descendente espanhola e disse com voz
firme:
- Eu sempre ouvi dizer que a voz do povo é a
voz de Deus, e que a casa dele é o nosso coração. Mas se esta é mesmo a casa
Dele, então vamos deixar que o povo vai decidir quem tem mais direito de ficar
dentro dela.
Em menos de um
mês o jovem padre já tinha sido transferido para outra paróquia. E ela passou a
se sentar no primeiro banco da igreja todos os domingos.
Lili era a
mulher mais forte e poderosa e a sua filha, por mais que se esforçasse, sabia
que nunca seria igual a ela, e isso era uma mágoa que a Megera cultivava desde
a infância, e que se acentuou mais com a chegada da filha Alice, por uma
disputa frenética pelo coração e amor daquele bebê inocente.
Nenhuma mulher
está realmente preparada para ser mãe. Não é como brincar de boneca, por mais
que essa prática seja considerada um treino. Uma criança é um ser vivo, com
vontades e tendências que já estão lá mesmo que ela ainda não saiba falar. Só
têm êxito no cuidado de bebês quem possui sensibilidade suficiente para
perceber, para ver, e reconhecer naqueles pequenos seres algo que só a
verdadeira empatia é capaz mostrar. Nenhuma delas, mãe ou avó, era capaz disso,
mas elas se empenharam ao máximo para serem necessárias aquela criança, para
que desde muito cedo a pequena escolhesse qual seria a melhor delas. Obvio que
Lili ganhou a disputa, pois era a melhor manipuladora de todas, com anos de
experiência em trapaças emocionais.
Um fato
contribuiu, e muito, para a vitória da avó, e não foram as bananas
caramelizadas com canela. Quando Alice, na sua maturidade de 4 anos, pediu para
morar com a vovó, a Megera estava gravida de sua segunda filha, Ariel. Alice
sentiu-se traída pela mãe que havia sempre lhe feito todas as vontades, já que
o seu maior desejo era ser única em todo o mundo, rainha daquele universo onde
orbitavam a mãe, o pai e a avó. Foi por isso que, num ato de rebelião, clamou
por seu próprio exilio. A Megera nunca se recuperou daquele ato de rebeldia, e
o seu fracasso com a primeira filha acabou refletindo no amor pela segunda,
como uma ferida que nunca cicatrizou.