domingo, 15 de dezembro de 2024

Ela, A Megera

Capítulo 1 A Megera e sua Mãe

Ela era uma mulher bondosa.

Pelo menos assim se dizia, ninguém seria capaz de contradizer uma verdade como essa.

Ela era piedosa, religiosa, se sacrificava pelos outros. Seu maior prazer consistia em se doar por completo no cuidado a familia: limpando, cozinhando, garantindo que todos fariam tudo certo segundo as regras que ela estabelecia para o funcionamento da casa.

O marido, esse não era capaz de se alimentar sem ela, nem mesmo sabia quais alimentos lhe apeteciam, ou a quantidade certa de comida a ser posta no prato. Era ela quem lhe servia o arroz, feijão, salada, mistura, água... absolutamente tudo em sua dieta alimentícia, até mesmo nas festas. Um homem sem braços ou pernas, decapitado até mesmo do paladar.

Mas ele a amava, sobretudo. Afinal de contas, era incapaz de sobreviver num mundo sem ela.

E era isso que ela admirava em seu cônjuge: a sua completa capacidade de ser incapaz sem ela. Esse fora seu único motivo para ter se casado afinal, segundo a sociedade da época, o valor da mulher estava ligado a satisfação do homem, e a vida feminina consistia em crescer, casar-se e ser útil ao marido e aos filhos. Por isso era uma vitoriosa em seu papel de esposa, já como mãe deixava um pouco a desejar, pois as suas filhas não eram tão colaborativas como o pai delas.

A sua filha mais velha, Alice, nasceu quando ela mesma era ainda uma criança. Por isso parte da educação de Alice acabou ficando por conta de sua avó, Lili, absurdamente ainda mais controladora e megera que a Megera oficial de nosso relato, pois essa senhora não apenas exercia influência sobre a familia, mas também controlava toda a comunidade praieira em que elas viviam. Uma benzedeira poderosa, sua palavra era lei desde Parati até Santos. Nem mesmo os padres eram capazes de enfrentá-la. Uma vez um jovem padre chegou a barrá-la na porta da igreja antes da missa, alegando que ela praticava atos de bruxaria e, portanto, não era digna de entrar na Casa de Deus. Ela apenas olhou no fundo dos olhos dele com seus pequenos olhos oblíquos de descendente espanhola e disse com voz firme:

-  Eu sempre ouvi dizer que a voz do povo é a voz de Deus, e que a casa dele é o nosso coração. Mas se esta é mesmo a casa Dele, então vamos deixar que o povo vai decidir quem tem mais direito de ficar dentro dela.

Em menos de um mês o jovem padre já tinha sido transferido para outra paróquia. E ela passou a se sentar no primeiro banco da igreja todos os domingos.

Lili era a mulher mais forte e poderosa e a sua filha, por mais que se esforçasse, sabia que nunca seria igual a ela, e isso era uma mágoa que a Megera cultivava desde a infância, e que se acentuou mais com a chegada da filha Alice, por uma disputa frenética pelo coração e amor daquele bebê inocente.

Nenhuma mulher está realmente preparada para ser mãe. Não é como brincar de boneca, por mais que essa prática seja considerada um treino. Uma criança é um ser vivo, com vontades e tendências que já estão lá mesmo que ela ainda não saiba falar. Só têm êxito no cuidado de bebês quem possui sensibilidade suficiente para perceber, para ver, e reconhecer naqueles pequenos seres algo que só a verdadeira empatia é capaz mostrar. Nenhuma delas, mãe ou avó, era capaz disso, mas elas se empenharam ao máximo para serem necessárias aquela criança, para que desde muito cedo a pequena escolhesse qual seria a melhor delas. Obvio que Lili ganhou a disputa, pois era a melhor manipuladora de todas, com anos de experiência em trapaças emocionais.

Um fato contribuiu, e muito, para a vitória da avó, e não foram as bananas caramelizadas com canela. Quando Alice, na sua maturidade de 4 anos, pediu para morar com a vovó, a Megera estava gravida de sua segunda filha, Ariel. Alice sentiu-se traída pela mãe que havia sempre lhe feito todas as vontades, já que o seu maior desejo era ser única em todo o mundo, rainha daquele universo onde orbitavam a mãe, o pai e a avó. Foi por isso que, num ato de rebelião, clamou por seu próprio exilio. A Megera nunca se recuperou daquele ato de rebeldia, e o seu fracasso com a primeira filha acabou refletindo no amor pela segunda, como uma ferida que nunca cicatrizou.